You can run, but you can’t hide: O impostor vai sempre atrás

Opinião de Maria João Guedes, Professora do ISEG, Lisbon School of Economics and Management e Coordenadora do POWER (Portuguese Women’s Equality Observatory)

Executive Digest
Fevereiro 4, 2026
10:33

Longe vão os dias em que o trabalho presencial era a forma predominante de trabalhar. Agora, trabalhar à distância tornou‑se normal, sobretudo no pós‑pandemia. As reuniões por Zoom, os emails a toda a hora e os dias inteiros em que nem se põe os pés no “escritório” são cada vez mais o dia a dia de muitos e muitas de nós.

Surpreendentemente, o trabalho remoto trouxe uma possibilidade pouco falada: a possibilidade de nos escondermos. Para muitas pessoas, o trabalho remoto é ideal porque as torna menos visíveis e diminui o desconforto que sentem e,  em especial, diminui a sensação persistente de não estar à altura, de poder ser “descoberto/a” a qualquer momento, apesar de resultados, avaliações positivas e anos de experiência. Ou seja, é o refúgio ideal para quem sofre com o fenómeno do impostor/a.

Esta é a conclusão do estudo recente¹, cuja principal mensagem é desconcertante: o trabalho remoto não cria o sentimento de impostor/a, mas afeta a confiança que cada pessoa tem na sua capacidade de trabalhar bem à distância. E quanto menor for essa confiança, maior é a dúvida que se instala. Não porque estas pessoas trabalhem pior, mas porque lhes falta o espelho quotidiano do escritório, onde os sinais informais de validação, o feedback imediato e o reconhecimento visível servem para confirmar (ou às vezes agravar) a perceção de estar ou não à altura.

O estudo mostra que quem se sente menos preparado para lidar com as exigências do trabalho remoto tende a duvidar mais da sua competência, sente‑se menos legítimo no seu papel profissional e reage, muitas vezes, com excesso de esforço, autocensura ou silêncio. Acabam por trabalhar mais horas, expõem‑se menos, perguntam menos, evitam confrontos. Não é falta de talento  mas o medo de falhar num contexto em que errar parece mais arriscado.

Este efeito não é igual para todos. As mulheres apresentam níveis mais elevados de impostorismo em várias dimensões, mesmo quando ocupam funções semelhantes às dos homens. O mesmo acontece com profissionais em posições hierárquicas mais baixas. Isto sugere que o problema não é apenas individual: está ligado à visibilidade, ao poder, às expectativas sociais e à forma como o reconhecimento circula (ou não) nas organizações.

O estudo também revela uma ambiguidade. O trabalho remoto prometia mais autonomia, mais equilíbrio e menos desigualdades. Mas, sem apoio adequado, pode reforçar inseguranças antigas,  sobretudo para quem já teve de provar mais para ser reconhecido/a.

O estudo aponta caminhos para mitigar estes sentimentos, como investir em competências específicas para o trabalho remoto, por exemplo organização, comunicação digital, gestão do tempo e autonomia, que podem reduzir o sentimento de impostor. Ou seja, o problema não está no trabalho remoto, mas sim em trabalhar à distância sem preparação, sem feedback e sem reconhecimento claro. Estes custos invisíveis não podem ser ignorados pelas organizações. O estudo conclui, de forma clara, que o fator decisivo é sentir que se domina ou não as competências exigidas pelo trabalho digital. E quanto maior a confiança nas próprias competências, menor a probabilidade de surgir a dúvida sobre o próprio valor. Só assim se pode evitar que o impostor se instale.

  1. Estudo: The relationship between remote work self-efficacy and impostor phenomenon, 2026 de Ana Singh
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